REPORTAGEM ONDE ESTÃO MEUS PAIS?

postado em 23 de nov de 2015 14:12 por DESAPARECIDOS DO BRASIL   [ 23 de nov de 2015 14:24 atualizado‎(s)‎ ]


         


Twenty years after they were sold and illegally adopted by european couples, these young adults come back to BraziL


BARCELONA - Margarida Videira da Costa

Vinte anos depois do boom das adoções ilegais, jovens de todo o  mundo procuram a família biológica.



O tema já motivou uma telenovela na Globo e foi alvo de sessões de debate em Brasília.

“Infelizmente, a justiça brasileira não tem cumprido com o apoio às vítimas do tráfico de bebés, porque os registos oficiais do passado são raros”, diz Amanda Boldeke, fundadora da ONG Desaparecidos do Brasil. “É como se eles não existissem.”

 Desaparecidos do Brasil existe desde 1997, mas foi com o boom da Internet que encontrou mais jovens de Israel, Itália, França e Estados Unidos, todos com a mesma confissão: “Descobri que sou brasileiro.”

O que se segue, nem sempre é um final feliz. “Só perto de 1% das vítimas encontra familiares.” Lior Vilk, 29 anos, foi uma das primeiras pessoas a contactar Amanda, em 2009. “Os meus pais tratam-me como se eu fosse a pessoa mais especial da vida deles. Mesmo assim, sinto que não pertenço a Israel. Quero conhecer a minha família biológica”, diz Lior.

A responsável pela falsificação dos documentos com que o jovem saiu do país, Arlete Hilu, liderou uma das maiores quadrilhas de tráfico de bebés do Sul do Brasil. Por cada criança cobrava entre 3.500 e 40 mil euros. Foi condenada a duas penas de prisão efectiva.


Antes de 1990, a adopção no Brasil era um tabu. “A maioria destes casais transferiu grandes quantias de dinheiro para as contas de intermediários, pensando que serviam para pagar os documentos” explica Amanda Boldeke. Na verdade, estavam a comprar um bebé. O drama foi capa do New YorkTimes, onde em cima da fotografia de um bebé se lia “O Brasil não exporta só café.” Teve consequências em todo o mundo – um jornal italiano revelou que quatro mil bebés brasileiros teriam entrado ilegalmente no país entre 1983 e 1992.

Os pais adoptivos de Charlotte transferiram o equivalente a 10 mil euros para a conta de Guiomar Morselli, dona do orfanato Lar da Criança em São Paulo. Foi a esta instituição que Edna Maria Silvestre, grávida de três meses, chegou em 1990. Hoje com 44 anos, é uma das testemunhas da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar o tráfico de pessoas no Brasil. A sua história confunde-se com a da maioria das mães envolvidas nestas redes: grávida e sem emprego, o orfanato prometia-lhe um tecto. O facto de vários casais estrangeiros visitarem a instituição não lhe causou suspeitas, até ao dia que uma colega lhe perguntou quanto ia receber pelo bebé – já lá tinha vendido cinco filhos.


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Médicos e juízes envolvidos 

Entre os protagonistas das redes de tráfico infantil encontram-se funcionários de lares e hospitais, assistentes sociais, mas também médicos, polícias e juízes, que se encarregavam de falsificar exames e documentos. “A adopção ilegal é um problema com muitos tentáculos e difícil de eliminar”, diz Amanda. 

Quando a polícia invadiu a casa de Carlos Cesário Pereira, advogado envolvido num escândalo de tráfico de bebés, em 1986, o homem defendeu-se argumentando que “a maioria destes bebés morreria antes de 1 ano se ficassem no seu ambiente de extrema pobreza”. Muitos réus utilizam o mesmo argumento: as crianças partiram de um Brasil pobre para uma vida melhor na Europa. O caso de Charlotte prova o contrário: a mãe adoptiva tinha desequilíbrios psicológicos; o pai problemas de alcoolismo. “Em França nunca passariam as provas para adopção”, confidencia a jovem. Depois de episódios de violência verbal e física, acabaram por perder a custódia da filha adoptiva, que passou a viver num abrigo apoiado pelo Estado francês. Charlotte estudou, juntou dinheiro e aterrou em São Paulo em 2012, em busca de pistas sobre o passado. O seu caso está agora em tribunal. “Aqui sinto que encontrei o meu lugar. Em França, ou estava doente por causa do frio, ou estava triste por não ser loura como as outras crianças. O meu corpo foi feito para viver aqui, no Brasil”, diz num português quase perfeito.


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